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"REALITY SHOW " por Orlandeli Estava sentadão no sofá da sala, quando entrou o Lucídio com uns dez pacotes debaixo do braço. Debaixo modo de dizer, porque nem dava pra ver a cara rapaz, eram sacolas, caixas, tudo empilhado e cuidadosamente equilibrado de um jeito que merecia apresentação no circo. Só percebi que era ele por causa do seu inseparável par de tênis caramelo com cadarço verde limão. “Gosto de ser exótico”, dizia ele. “Deixa de ser ridículo”, respondia eu. - Ô Lucídio. Que é isso, rapaz? Vai viajar? - Que nada. É que fiquei encarregado de comprar as coisas. O pessoal virá aqui hoje à noite, todo mundo já confirmou presença. Tá tudo certo, comprei carvão, carne, pão... - Ôpa! mas ninguém me avisou que iria ter festa. É aniversário de quem? - Tem nada de aniversário, não. É outra coisa. Decidimos agora à tarde. Cê não viu na televisão? É hoje que começam os bombardeios. Vai ser tudo transmitido ao vivo, com direito a comentários de especialistas e tudo mais. Daí pintou a idéia de reunir o pessoal pra ver o início da guerra aqui em casa. Legal, né? Por um momento achei que fosse brincadeira. Sabe? Tipo pegadinha? A gente entra na discussão, vai se envolvendo, se altera...Quando percebem que você está prestes a ter um piripaque no sistema nervoso (e bota nervoso nisso), aparece aquele monte de gente, do nada, rindo da nossa cara. Esperei uns cinco minutos e nada de risadas. Parecia que a coisa era mesmo séria. - Piquenique não! Churrasco! O negócio aqui é carne no espeto - Disse Lucídio, enquanto abria a geladeira com o pé. - Ora, piquenique, churrasco... tanto faz! Não pode é levar isso na brincadeira. Guerra é coisa séria, sabia?! - Claro que é. Por isso que não podemos perder um segundo sequer da transmissão. Tudo pode acontecer. Já peguei toda a programação, as redes de televisão estão cobrindo tudo. Tem repórter, fotógrafo, câmera, pra tudo quanto é lado. Ouvi dizer que irão soltar um míssil com uma mini câmera acoplada. É a última palavra em equipamentos para jornalismo bélico. O bichinho vai mostrando o trajeto tim tim por tim tim... até que......POW!!! - POW!!?? - É. Pow, bum, caplof... O que achar mais conveniente. - Conveniente seria internar todos vocês, isso sim. Bando de insensíveis... - Ah, deixa de ser chato. Se fosse pra ninguém assistir, eles que não mostrassem nada, oras bolas. Fala pra mim, por que é que esse povo investe tanta grana pra conseguir transmitir as imagens da guerra? Pra gente ficar olhando um pra cara do outro? HEIN??! - Bom, sei lá... sabe como é... o jornalismo tem que passar as notícias... - Então!!! Eles passam e a gente assiste. Alguns roendo as unhas, outros comendo picanha. Pura questão de gosto. Particularmente, prefiro a picanha. - Hmmm... Parece estranho. A gente assistindo o que está acontecendo com a vida dos outros, como se fosse um filme... - Oras, mas a gente já faz isso. O Big Brother é o que afinal?? Você assiste Big Brother, não assiste? - É, assisto, mas é que... - Então! É quase a mesma coisa. Só que de um jeito assim... como podemos dizer... um pouco mais... RADICAL! - Big Brother radical??!! - Isso! Um Big Brother versão 2.0, categoria RADICAL, nível AVANÇADO. Tudo isso em uma tela plana de vinte e nove polegadas, home theater, com todo aconchego que o lar pode oferecer. E ainda saboreando uma deliciosa picanha, acompanhada de uma Kaiser estupidamente gelada. - PÁÁÁRA!!!!! NÃO DÁ PRA ACREDITAR NISSO QUE ESTOU OUVINDO!!!! - Credo, pra quê esse desespero? - SKOL!!!!!!! Era pra ter comprado SKOOOOOL!!!!
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