"O NOVO INQUILINO"

por Orlandeli


- E aí? O que tá escrito?
- Tá assim: A moradia ficará inanimada até a chegada do “novo inquilino”.
- É, olhando assim, até que faz sentido.
- Como assim? 
- Oras, e por acaso você já viu algo mais INANIMADO do que esse bicho aí em cima? Tá tudo dentro dos conformes. Agora é só esperar.
- Sei não... Tá assim já faz meia hora. Acho que matamos o bichano.
- Deixa de besteira, é tudo parte do ritual.
- Até pode ser, mas é que... cê sabe...depois do álcool...do fogo... Sei lá.
- Pára com isso. Se está escrito é porque tá certo. Não fizemos nada demais. Né, Moisés?
- ...
- Oh, Moisés. Tô falando com você.
- ...
- ABRE A BOCA, RAPAZ!!!
- ...Aristóteles, matei o Aristóteles...
- Ôôô, meu saco!! Até você??!! Deixa de besteira. Fizemos tudo do jeitinho que estava no livro. Não tem porque dar errado. O Aristóteles está vivo. Porém, está no que podemos definir como... hérnn...um estado de transição. É isso.
- Como assim, transição??
- Aguardando o “novo inquilino”, oras bolas.
- Húm???
- Moisés, explica pra essa ANTA, aqui, QUEM é o novo inquilino.
- ...
- Moisés??
- Aristóteles, matei o Aristóteles...
- AHAAAAAA! É muito pra cabeça!!!Parece disco riscado!! Pode deixar que eu mesmo explico. Seguinte, cê sabe que tenho uns parentes lá em Paranaí, né? Então, um deles é o meu tio Jair. A história é que o tio Jair sempre teve uma... mania. Toda semana, acontecesse o que acontecesse, passava na loteca e fazia sua fezinha. Era sagrado. Mês após mês, ano após ano. Sempre jogando os mesmos números. Bom, insistiu tanto que um dia a sorte lhe sorriu. O velho acertou SOZINHO na Mega Senna acumulada.
Precisava ver a felicidade do velho. Finalmente, depois de anos, poderia responder à altura, as brincadeiras que os amigos de boteco faziam “E aí, Jair, DEU pra ganhar?” -" Não. GANHEI SEM DAR, MESMO”, a resposta já estava na ponta da língua, só esperando o primeiro engraçadinho. Mas é o que eu sempre falo, alegria de pobre dura pouco. No mesmo dia em que ficou sabendo da notícia, veio o caminhão e PUM, pegou ele em cheio. Nem deu tempo de receber o prêmio.
Foi levado pro hospital, mas a coisa tava feia. Todo mundo ficou preocupado. Não com o tio Jair, mas com o bilhete. Ninguém sabia aonde ele tinha guardado o dito cujo.
Mesmo sabendo que estava entre a vida e a morte o velho não contou pra NINGUÉM aonde estava o tal bilhete premiado. Se recusava a acreditar que o destino tinha lhe reservado tamanha sacanagem. Foi então que pediu para me chamar. Talvez porque eu fui o único que não ficou rodeando em volta da cama, tendo ataques histéricos, por causa do maldito bilhete. Disse que, se o pior acontecesse, era pra eu pegar um livro de ciências ocultas que tinha escondido no quarto, seguir as instruções, que, aí sim, faria contato e me revelaria o esconderijo.
Bom, o PIOR aconteceu, por isso estamos aqui. Pra tentar falar com o tio Jair e receber a bolada.
- Puts. Incrível.
- Pois é. E vai ficar mais incrível ainda quando o tio Jair entrar no corpo do Aristóteles e mostrar aonde está o bilhete. Seremos RICOS.
- E por que um gato?
- Oras, o livro pede uma “moradia” para o “novo inquilino”. Cê queria o quê?! Não é tão simples convencer alguém a servir de moradia pra defunto. O Aristóteles foi nossa última opção. E olha que mesmo assim, tive que dar mil e uma garantias pro Moisés colocar ele na parada. Cê sabe como ele é com esse gato.
- Puxa! Que história.... mas quem garante que esse negócio de ciência oculta vai dar certo.
- Bom, garantir, ninguém garante, mas se o tio Jair falou pra fazer, então deve dar certo. Ele sempre foi metido a mexer com essas coisas. Parece até que participava de uma seita... grupo... sei lá.
- Sei não, faz mais de meia hora que o gato tá aí, todo espichado e nada. Tô achando qu...
- OLHALÁ!!!!!!!! TÁ MEXENDO!!!!!!
- Quê?!
- EU VI, EU VI!!! MEXEU O OLHO! EU VI!!!
- Sério?!
- CLARO QUE É SÉRIO, RAPAZ! DEU CERTO!! FICAREMOS RICOS.
- Pra mim o gato continua parado do mesmo jeito.
- Que nada, a transformação tá começando. Primeiro é o olho, depois o resto. EU VI! Mexeu aqui, ó. Bem aqui!
Nem bem encostou o dedo no olho do gato e o globo ocular caiu, rolando pela mesa.
- CARA, QUE NOJO! Esse gato já está caindo aos pedaços. Vamos embora daqui!
- Que é isso, rapaz. Vamos esperar, “o novo inquilino” irá chegar.
- Pois pra mim esse imóvel tá é ABANDONADO. Não tem “inquilino” nenhum aí dentro. Olha! O bicho tá até duro...
- Será?!
- Claro!! Olha isso... Tudo podre.
Um leve chacoalhão, e cai o segundo olho.
- Puts, acho que você está certo.
- Pois é.
- Uma pena, né?
- Se é.
- Falar a verdade, nunca fui muito de acreditar nesse negócio de magia.
- Ciência oculta!
- Que seja! Vamos embora que hoje tem show, lá na garagem.
- Pô. Verdade. Vâmbora.
- Ei, Moisés. Cê não vem?
- ...
- Moisés??!!
- Aristóteles, matei o Aristóteles...