"A COBAIA" por Orlandeli Bartolomeu Eurípedes Filho, esse era
seu nome de batismo. Se bem que pouca gente sabia disso, aliás, até
mesmo para o próprio Bartolomeu isso já não tinha grande
importância. Quando se está na rua, o que menos interessa é essa
coisa de hereditariedade, raízes... O que vale é chegar inteiro ao
final do dia. Se tivesse netos, Bartolomeu teria muitas histórias pra contar. Histórias engraçadas e tristes. A maioria triste. Mas Bartolomeu nunca teve filhos. Que dirá, netos. Era visto como um pedaço de carne ambulante. Ultimamente não muito ambulante, já que passava o dia todo deitado na calçada. Teve um tempo em que andar era mais fácil. Se desaparecesse de um dia para o outro, ninguém notaria. Talvez alguns cachorros da vizinhança, que o acordavam pela manhã lambendo suas feridas. Mas fora eles, ninguém. - É ele! - Tem certeza que quer fazer isso? - Claro, olha lá. Esse é o nosso homem, se é que podemos chamar isso de homem. A cobaia perfeita para o teste. - Sei lá... Fico com um pé atrás... Cê sabe, isso está completamente fora do protocolo... - Deixa de ser besta. Isso é coisa grande, rapaz. Coisa pra mudar a história. Já viu alguém mudar a história seguindo "protocolo"? Além do mais estaremos fazendo uma boa ação. Olha lá! Esse homem tá na merda. Morreu e esqueceu de deitar. Se a experiência for um sucesso ele terá uma nova vida. Sua capacidade intelectual será ampliada mais de cem vezes, todos os limites do poder da mente cairão por terra, ele será conhecido no mundo inteiro... Nunca o homem esteve tão próximo da compreensão universal. Nunca o homem esteve tão próximo de DEUS!... - E se der errado? - Bom...Se der errado é só a gente ficar de bico calado que ninguém nem fica sabendo. O cara já tá todo ferrado mesmo. - Sei não... Sei não... - Cara, vai por mim. NÃO VAI DAR ERRADO! Os dois homens aproximam-se devagar. Bem vestidos, andar e gestos impecáveis. Param a não mais do que dois metros de Bartolomeu. O cheiro é forte, pelo menos para o olfato refinado dos dois visitantes. Uma mistura de urina e álcool que parece estar impregnado até a alma. Contemplam Bartolomeu por alguns segundos. Uma criatura suja, cheia de feridas, esparramada em cima de folhas de jornal, abraçando junto ao peito um pedaço de pão velho. Provavelmente seu desjejum do dia. Os dois olham entre si e fazem um gesto rápido com a cabeça indicando positivo. O teste será feito em Bartolomeu. - E aí, como a gente faz? - Ora essa... É só aplicar a seringa no cara. Não é isso?! - Sei, sei... Mas assim... Na rua.... Todo mundo olhando... - Me dá essa seringa aqui! O homem pega a seringa e a esconde na palma da mão direita. Com a outra mão tira uma nota de um real do bolso. Esta faz questão de exibir, caminhando a passos curtos em direção a Bartolomeu. Quando chega bem perto, agacha. Bartolomeu percebe a presença do estranho. Apesar do fato ser raro, alguém chegar assim, tão perto, não manifesta qualquer reação. Nem alegria, nem tristeza...Apenas fica olhando. O homem coloca a nota de um real diante de Bartolomeu e diz - Meu amigo, prepare-se para chegar aonde ninguém chegou! - Ao mesmo tempo injeta o conteúdo da seringa na perna de Bartolomeu. O movimento é rápido. Bartolomeu fica olhando o homem se afastar. Sente a perna dolorida, mas a dor já é uma velha conhecida, então não dá muita importância. Em poucos instantes começou a sentir uma estranha energia percorrendo todas as suas veias e artérias. Uma sensação boa. Coisa que há muito tempo não sentia. Seus músculos pareciam ter recuperado a força, o que antes era feito com sacrifício e dor, Bartolomeu fez com a naturalidade de uma criança. Ele levantou. E pela primeira vez depois de muito tempo, sorriu. Bartolomeu olhou em volta. Pessoas andando apressadas, sem sequer olhar para o lado. Elas não notavam sua presença, mas, mesmo sendo completos estranhos, Bartolomeu conhecia todas elas. Não era o tipo de "conhecer" que estava acostumado, de saber o nome, onde mora e essas coisas... Era algo mais íntimo. No olhar de cada pessoa conseguia ver os seus sentimentos, suas angústias e incertezas. Atrás de seus ternos, vestidos caros e sorrisos, Bartolomeu enxergava seus medos. Medo de fracassar, medo de não agradar, medo de errar, medo de não ser aceito... Dentro de suas roupas rasgadas, cheirando a urina e álcool, Bartolomeu que sempre foi motivo de pena, olhava para todas aquelas pessoas e via com clareza o quanto o ser humano é frágil e pequeno. Bartolomeu riu. Começou a andar, não sabia pra onde estava indo, mas também não se sentia perdido. Caminhou anônimo, perdendo-se no meio da multidão. - E aí? Não vai acontecer nada? - Sei lá, vai ver demora um pouco. - Sei não, o cara continua aí deitado, com esse sorriso bobo na cara, já faz uns cinco minutos... Parece até que nem respira. O homem engravatado coloca os dedos médio e indicador na artéria de Bartolomeu, procurando sentir alguma pulsação. - Quer saber, melhor a gente sair de perto. - Será que alguém viu? - Não!! Acho que não!! Vem cá...O que será que deu errado, heim?
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